21 outubro 2012

duas palavrinhas sinceras sobre o Manuel António Pina.

Em 2009 realizei um filme sobre o Manuel Hermínio Monteiro, editor da Assírio e Alvim, falecido em 2001. Conhecia o Hermínio desde miúdo e quando me convidaram para fazer o filme, achei que a melhor maneira de transmitir o seu espírito de vida, seria filmar um jantar onde um grupo de amigos dele pudesse partilhar histórias, regadas a vinho tinto, enquanto empanturravam o bandulho com uma qualquer comida deliciosa, como tanto o Hermínio gostava de fazer.
Rapidamente percebi que isto seria tarefa impossível, a morte do Hermínio deixara as pessoas à sua volta, não só órfãs, mas desorientadas, como quando morre um avô e a família se apercebe que ele era um elemento de tal maneira agregador que perante a sua falta, não sabe como lidar com a "herança" (no sentido metafórico, não estou a falar de dinheiro).
Isto tudo para falar do Pina... O Pina gostou da ideia e quis fazê-la, convidou o jornalista Luis Miguel Queirós e sugeriu um restaurante no Porto. A equipa sentou-se com ele à mesa e comeu e bebeu e fumou enquanto filmava, com pausas apenas para trocar de cassete. A imagem ficou escura e o som ruidoso (porque o restaurante não estava fechado só para nós), mas o espírito está todo lá.
As histórias que o Pina contou sobre o Hermínio parecem triviais, mas são absolutamente definidoras dele, como a do arranjinho de reconciliação entre o Cesariny e o Eugénio de Andrade que o Hermínio organizou e onde eles fizeram as pazes. No meu filme quando o Pina conta esta história, ouve-se a gargalhada solta da Joana Cunha Ferreira, totalmente esquecida do seu papel silencioso de elemento da produção e completamente embebida nas palavras do Pina.
No filme essa gargalhada, enche-me sempre de alegria. O Hermínio era isto. E o Pina era isto também. Depois do jantar o Pina não se quis despedir, fomos beber mais um copo. A câmara já não estava a filmar, mas não havia diferença. Podia estar. Devia estar. O filme agora não seria sobre o Hermínio, mas sobre o Pina. E falaria de gatos e de "uma empregada, uma cadela e um coronel com um pingalim" (como uma história que ele contou ao Frazão, mas que ele também já não se lembra), e teria muito sotaque do Porto e muito sentido de humor e doçura.

3 comentários:

Anónimo disse...

gosto muito deste texto x

Ander disse...

<3

Jwana Godinho disse...

Lindo André