04 janeiro 2012

Para este ano (e sim, este post é sobre a crise):

"Votre combinaison, le saviez-vous, dépasse."
La Chambre Jaune by Andre Godinho

03 janeiro 2012

Melhores filmes de 2011 #20




















"Estudos sobre o Declínio do Ocidente" de Klaus Wyborny
(cinemateca- ciclo: "Resíduos")

Este filme é tão terrivelmente belo que dá vontade de chorar. É um trabalho meticuloso, obsessivo-compulsivo mesmo, de montagem de imagens em perfeita sincronia com música. Curiosamente a presença do realizador dessacralizou a sessão (o senhor no alto dos seus 66 anos passou a sessão a correr escada a baixo e escada a cima, para ir à cabine de projecção regular o som do filme, ou para tirar fotografias à projecção...)
Imagens do filme tiradas daqui.

02 janeiro 2012

Melhores filmes de 2011 #19


All That Jazz de Bob Fosse
(dvd)

Em 2011 descobri o Bob Fosse, personagem com uma vida e um trabalho fascinante. Este filme é uma espécie de auto-retrato de Fosse. Muito negro e violento, acaba com o corpo do protagonista, um coreógrafo/realizador, a ser fechado num body-bag enquanto se ouve "There's no business, like show business." O que é que há mais a dizer?

Melhores filmes de 2011 #18



This is Not a Film de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb
(dvd)

A situação do Jafar Panahi deixa-me completamente angustiado. Este filme foi feito enquanto estava em prisão domiciliária e antes de lhe ter sido confirmada a pena de 6 anos de prisão e 20 anos sem poder filmar. A ideia de que esta pena seja sequer possível, é para mim alucinante.
O filme é um retrato do realizador encurralado (filmado por outro realizador que foi também preso, entretanto).
Panahi está o filme todo a fazer o que sabe que não pode: lutar. Mas também sabe que é a única coisa que tem que continuar a fazer.
No final vê-se o exterior, lá fora as ruas ardem. Mas ainda não o suficiente.

Melhores filmes de 2011 #17


Uma Abelha na Chuva de Fernando Lopes
(cinemateca- ciclo: "O cinema à volta de cinco, artes cinco artes à volta do cinema: cinema e musicalidade")

Este filme é absolutamente surpreendente, basta ver aliás este excerto para ter uma ideia de como a montagem e os movimentos de câmara, por exemplo, são breath-taking.
O filme passou num ciclo sobre cinema e musicalidade, enquanto via alguns filmes do ciclo pensava no que era a grande diferença entre a musicalidade e a coreografia (tema de outro ciclo anterior dos mesmos programadores), porque na realidade a musicalidade, se pensarmos em découpage e em movimentos de câmara, traduz-se na coreografia. Mas a diferença é este filme! É profundamente musical, sem isso se traduzir na coreografia dos planos. Que pena que o Lopes não tenha feito mais filmes assim...

30 dezembro 2011

Melhores filmes de 2011 #16 (ou Sobre o sofrimento de ver um filme pela segunda vez)


In a Lonely Place de Nicholas Ray
(cinemateca- ciclo: "We can't go home again- integral Nicholas Ray")


Devi de Satyajit Ray
(cinemateca- ciclo: "O cinema à volta de cinco, artes cinco artes à volta do cinema: cinema e musicalidade")

Normalmente gosto muito de rever filmes (os bons, claro), mas tive uma reacção particularmente difícil quando revi recentemente estes dois filmes. A constante memória dos respectivos finais assombrou-me durante todo o filme e tudo o que eu sentia enquanto os via era a angústia de saber que acabam mal, sempre, que não há esperança que eles desta vez acabem de maneira diferente.


Na folha da cinemateca de In a Lonely Place fala-se sobre o paralelo que há entre o personagem do Humphrey Bogart e o próprio Ray, quando saí do filme senti-me como a Gloria Grahame, agredido, apaixonado e só.

29 dezembro 2011

Melhores filmes de 2011 #15


Pater de Alain Cavalier
(cinema)

O que eu mais gosto neste filme é nunca sabermos muito bem o que estamos a ver, um realizador e um actor que se filmam um ao outro, e que fazem uma ficção: o realizador é um presidente da república e o actor um candidato a primeiro ministro. Mas o que é maravilhoso é os vários níveis que este jogo pode ter. No trailer há uma cena em que o actor, o Vincent Lindon, diz que começa a acreditar que podia realmente vir a ser primeiro ministro, se se esforçasse, se trabalhasse para isso. Mas o que é genial é que quando eu vi essa cena no filme (vi o filme antes de ver o trailer), não tive a certeza se quem dizia, que acreditava poder ser ministro, era o Vincent Lindon-actor ou o Vincent Lindon-personagem. Nada é o que parece em Pater e principalmente nada tem uma leitura linear.

Melhores filmes de 2011 #14



The Anthem de Apichatpong Weerasethakul
(cinemateca- ciclo: "O mundo mágico de Apichatpong Weerasethakul")

O ciclo integral do Apichatpong na cinemateca incluía 4 sessões de curtas que começavam todas com o mesmo filme, The Anthem, um filme de 5 minutos com apenas 2 planos e que foi um dos filmes que mexeu mais comigo este ano, tornando-se talvez até numa obsessão para mim.
No dia em que o vi pela primeira vez, fui a duas sessões de curtas seguidas e por isso vi o filme 2 vezes, mas apercebi-me que quanto mais o via, mais tinha vontade de o rever. Desde essa altura já o revi muitas vezes, mas continua a deixar-me intrigado. É já o meu filme preferido do Apichatpong, juntamente com o Syndromes and a Century (se é que se pode comparar um filme de 5 minutos com um filme de 105...)

28 dezembro 2011

idle


A Etta James está internada, ligada a um ventilador e sedada, foi-lhe diagnosticada leucemia terminal e demência. Momentos antes de morrer vai acordar, tirar o tubo que tem na boca e, com o resto de voz que lhe sobrar, vai cantar o "At Last". Talvez sobreviva até ao final da música, talvez morra a meio, mas o seu filme terá um belo final.

27 dezembro 2011

Melhores filmes de 2011 #13


Rubber de Quentin Dupieux
(tirado da net, porque já estava farto de esperar que passasse nalgum sítio e não tinha sequer esperança que estreasse no cinema comercial, onde acabou por estar durante uma semana...)

Adoro os filmes do Quentin Dupieux. O Teo disse que este filme era a minha cara. E é. Gostava de o ter feito (mas não o fazia assim).
Não estava à espera que este filme estreasse no cinema, mas estava ainda menos à espera que fosse recebido com tanta indiferença, não houve nenhum crítico que realmente odiasse ou que realmente amasse, tudo mais ou menos indiferente, nada como a crowd da net...



Melhores filmes de 2011 #12



The Tree of Life de Terrence Malick
(cinema)

Há filmes assim, uns odeiam, outros adoram. Eu adorei, mas percebo os haters (alguns)... Admito que a música é horrível (principalmente o Lacrimosa), sei que é tudo tão estúpidamente belo que se torna insuportável e também detesto a cena final... Mas mesmo assim isso não me impediu de amar o filme e de ficar durante semanas obcecado a pensar na montagem alucinante deste filme (já aqui falei sobre isto). A marca que me deixou foi forte e mesmo que não seja perfeito (como era o The New World), foi dos filmes que mais me impressionou este ano.

Dantes falávamos português...


Este ano foi em espanhol, para o ano vai ser em francês!
mais info: aqui.

26 dezembro 2011

Melhores filmes de 2011 #11


Fitzcarraldo de Werner Herzog
(Gulbenkian- programação: Próximo Futuro)

A minha lista dos melhores filmes que vi em 2011 continua, não é um top 10, é um top 20 ou mais, porque o ano ainda não acabou...
Este filme vi numa sessão muito especial que lhe deu uma dimensão bastante mais impressionante, a projecção foi no auditório ao ar livre do jardim da Gulbenkian. Ver este filme, que se passa na Amazónia profunda, rodeado de árvores, enquanto os aviões sobrevoam e os barcos sobem montanhas, torna-o ainda mais extraordinário...

23 dezembro 2011

Melhores filmes de 2011 #10



Two-Lane Blacktop de Monte Hellman
(cinema Nimas- ciclo: "On the road")

Este filme ficou-me aqui a remoer, sem eu me dar muito conta disso. Deu-me vontade de fazer um road movie, e inspirou-me o suficiente para escrever um argumento. Que mais se pode querer de um filme?
Quanto ao meu argumento, it goes a little like this:


Melhores filmes de 2011 #9


Greed de Erich Von Stroheim
(cinemateca- ciclo: "A cor do dinheiro")

Fiquei super overwhelmed com este filme, já tinha visto muitos excertos, mas nunca o tinha visto todo (e não o vi, aliás as teorias divergem sobre o que é o "todo", de qualquer maneira não creio que fosse uma versão perdida de 9 horas...).
Gostei muito de ver uma cena em particular, em que a ZaSu Pitts, na sua representação bastante expressionista, faz o gesto mais codificado da cobiça: o esfregar as mãos enquanto semicerra os olhos. O que eu gostei foi de perceber que o que ela está a fazer, não é esfregar as mãos, mas a pôr creme. Há uma justificação para o gesto, que vai depois ser simbólica na perda.

Melhores filmes de 2011 #8


Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives de Apichatpong Weerasethakul
(cinema)

Sou fã incondicional do Apichatpong. É dos poucos realizadores da actualidade que tem um universo único, que lhe pertence a ele e a mais ninguém. Onde a religião, a tradição, a lenda, a contemporaneidade, a cultura pop e a natureza estão em conjunto e funcionam todas juntas. Com um sentido de humor de uma subtileza brutal e uma sensibilidade inacreditável.
Só assim é possível que um monge que se multiplica possa conviver com uns macacos saídos da ficção científica tailandesa dos anos 70, e com uma princesa feia que faz amor com um peixe.


22 dezembro 2011

Melhores filmes de 2011 #7


Somewhere de Sofia Coppola
(cinema)

Eu sei que toda a gente odiou este filme da Coppola, que não tem nada, que é sempre a mesma coisa, coitadinha da menina rica, etc. Eu adoro-o. Tudo! Digo mais, gostava de ter feito este filme. E é precisamente por não se passar nada, por não ir a lado nenhum e por ser exactamente a mesma coisa que os anteriores (Lost in Translation, Marie Antoinette e Somewhere contam exactamente a mesma história: pessoas perdidas em lugares estranhos, incapazes de comunicar...), mas há realizadores maravilhosos que estão constantemente a contar as mesmas histórias (o Naruse, o Kaurismaki, ou o Wes Anderson, por exemplo).


O filme tem muitas coisas maravilhosas, desde a cena de abertura (ver aqui) que é de uma desolação brutal, às duas cenas das coelhinhas da Playboy, à cena da máscara de latex, que é absolutamente angustiante e sufocante.
Repetição e desolação. É sempre o mesmo, so what?

21 dezembro 2011

Melhores filmes de 2011 #6


Film Socialisme de Jean-Luc Godard
(Culturgest)

Monumento brutal. Tenho a tendência de achar que muitos realizadores deviam pensar mais antes de fazerem os seus filmes. O Godard faz mais do que isso, ele faz os filmes para pensar. Não há filme mais actual que este, que pense tanto o presente como este, o que é difícil, porque como diz o outro, o presente "tem o acesso bloqueado".